6 de jun de 2016

contém saudade

A estadia no Brasil foi curta mas vivida muito intensamente. Foi uma viagem muito emocional e que encontrei não apenas todos aqueles que amo e que sentia muita falta mas também a mim mesma. Logo no primeiro dia, pedi pra minha mãe para revirar as coisinhas de costura dela, já que da última vez ganhei muitos aviamentos que ela não usaria mais. O primeiro contato com seu novo cantinho de costura foi emocionante. De cara vi as linhas pelo chão, senti o cheiro do pó de corte de tecido novo. Sentar na frente da máquina industrial dela de novo, onde aprendi a costurar (e não com uma pequena Singer como a maioria) foi interessante. Um pouco desconfortável pra mim, tão acostumada à minha mesinha na minha sala de estar, sem aquela mesa enorme da minha mãe, cabos, correntes, os pedais enormes, o motor tão grande. Minha mãe costura pouco, menos do que antigamente e voltada para suprimir metas de uma pequena confecção da região especializada em uniformes, então ela trabalha em casa. Sempre trabalhou em casa.

Ali sempre a ajudei nas pequenas coisas como a cortar as etiquetas que descrevem o tamanho das roupas. Etiquetas essas, que vêm em rolos para nossa casa mas são costuradas às golas em unidades, precisando portanto, serem cortadas com tesoura uma a uma, o que atrasa o trabalho de uma costureira que trabalha em casa, com 4 filhos, marido, cachorro, netos e tantos outros afazeres.
A vida toda eu auxiliei ela a fazer esses pequenos serviços: passar entretela nas golas e punhos, cortar etiquetas, desvirar peças, cortar sobras das linhas penduradas e daí sentei na Overlock, já que a máquina "reta" era sagrada. Só ela sentava lá, acho que ela nunca confiou muito em mim pra máquina "reta" (reta porque o ponto é reto, a máquina não oferecia pontos diversos como zigue-zague). Então ia brincando sozinha na reta sem necessariamente ajudar nas roupas a serem entregues. 



Foi aqui na Alemanha, encurtando uma cortina nova com a Singer portátil da minha cunhada que meu marido viu meus olhos brilharem ao manusear a máquina da irmã dele. Meses depois, ele não teve dúvida, me deu uma máquina de costura de presente e de surpresa, no meu primeiro aniversário vivido aqui na Alemanha. Foi o presente mais sentimental que ganhei na minha vida. Nada ainda superou isso.
De primeiro ela serviu pra reparos, até que comecei a brincar com ela. A oferta magnifíca de tecidos com estampas muito coloridas e criativas daqui, além da atitude Do-it-Yourself alemã fizeram com que eu corresse muito atrás de inspiração e a fonte disso foi a internet e assim nasceu o blog. 




Portanto, quando sentei naquela cadeira e fui mexer em suas caixas, ao ver os rolos das etiquetas, eu desabei de chorar. Foi instantâneo e inevitável. Me senti uma tonta chorando ao segurar rolos de etiqueta com a letra P. Parecia ridículo, mas me levou a minha infância de imediato, quando cortava aquelas etiquetas para ela quase que diariamente depois da escola. Foi ali que tudo começou. Me arranca um sorriso do rosto e olhos lacrimejam só de descrever esse momento.


E ela, que pediu apenas que eu mandasse um aplicador de botões de pressão que para ela seria mais barato que comprar em São Paulo, vai receber essas coisinhas desse post que preparei para ela e ela nem está sabendo. Recentemente foi aniversário da minha mãe e sou tão grata a ela por ter descoberto a costura com ela, que aqui me deixa tão perto dela mesmo longe.




A casinha de madeira acima foi trazida na mala e também me faz voltar à infância porque ela, apesar de servir pra decoração já tendo abrigado desde bonequinhos até mini garrafas de bebidas de marcas famosas, foi nela que brinquei de boneca quando era menina quando ela estava descoupada, ou seja, já teve muito sofazinho, caminha e banheira nessa casinha. Ainda não foi pendurada na minha parede mas já achei o que colocar nela.

6 comentários :

  1. Que post mais emocionante! Adorei saber um pouco mais dessa história linda que liga vocês duas, esse fio (literal) que é a costura unindo vocês desde a infância até agora. É lindo que você possa reconhecer e manter esse laço!
    Beijos

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  2. Que escrita linda. Me soa também agradável!!!

    abraço imenso.

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  3. ah que história mais linda essa sua, eu adoro relembrar da infância com objetos, essa casinha parece ser muito nostálgica, se eu tivesse uma dessas quando criança teria sido muito feliz! hahaha
    E amei os cactos de alfinete, mto criativo :)))

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  4. Olá Pri, que bonito e emocionante texto. Não restam dúvidas que a viagem ao Brasil, foi mais do que isso, terá sido um despoletar de emoções e recordações, que mais palpáveis se tornam por vc morar longe da família. Sempre tinha notado a forma carinhosa como vc fala de suas costuras , mesmo as mais simples. Seus textos e até o título do blog, expressam isso agora dá para entender o porquê. Vc não descobriu a costura tardiamente e sozinha (como eu) e sim ela fez parte da sua história desde sempre. A caixa que vc manda para sua mãe contém do que saudade. Tem carinho, amor e cumplicidade também. Beijo e obrigada por partilhar momentos tão importantes para vc!

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  5. Olá Priscila! Tudo bem?
    Vi uma postagem sua ja antiga falando de suas aventuras nos sites da Etsy e Dawanda, mas vi que sua lojas não tem nada ou foram desativadas. Você desistiu de vender por estes sites? Porque?
    Marcos Fonseca

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  6. Oi Marcos,
    Eu estou costurando pra reabrir a loja.
    Eu realmente deixei por um tempo e estou voltando aos poucos.
    Em algumas semanas ela estará de volta! ;)

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